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Diálogos entre Metodologia Comunicativa Crítica e Comunidades de Aprendizagem

06/11/2018

Diálogos entre Metodologia Comunicativa Crítica e Comunidades de Aprendizagem

Em entrevista, o professor e pesquisador do CREA, Aitor Gómez, analisa os impactos de trabalhos científicos e educacionais fundamentados a partir do Diálogo Igualitário

O fracasso escolar é um caminho quase inevitável em direção à exclusão social. Mas a mera universalização do acesso à Educação Básica não garante, por si só, a desejada inclusão educativa. Buscar práticas educativas capazes de melhorar a aprendizagem e promover, de fato, essa inclusão é um dos objetivos perseguidos por Aitor Gómez em seu trabalho como pesquisador do Centro Especial de Investigação em Teorias e Práticas Superadoras de Desigualdades (CREA) da Universidade de Barcelona.

Gómez, que também é professor da Universidade de Rovira i Virgili, participou nas últimas décadas de pesquisas internacionais – como Workaló e Includ-Ed – e coordenou recentemente a pesquisa Edufam, que identificou as características e o impacto de programas de Formação de Familiares dirigidos a famílias vulneráveis e promovidos por escolas que tomaram para si o desafio superar o fracasso educacional e reverter os baixos índices de aprendizagem.

Os três estudos têm como base a Metodologia Comunicativa Crítica (MCC), uma concepção do modo de fazer pesquisa que se dirige não apenas à produção de diagnósticos sobre a realidade, mas que busca a transformação social por meio da combinação entre conhecimento científico e a voz de pessoas comuns.

"Eu não vou fazer um trabalho de campo para saber em que consiste o fracasso escolar. Vou ver o que posso fazer com minha pesquisa para tentar combater o fracasso escolar", afirmou o pesquisador durante uma formação direcionada às equipes de Comunidades de Aprendizagem (CA) atuantes na América Latina, organizada em agosto de 2018 pelo Instituto Natura.

Veja o vídeo da formação:

 

Na perspectiva da MCC, o conhecimento é resultado do diálogo que incorpora saberes e pontos de vista de toda a comunidade. Assim como acontece nas Tertúlias Literárias Dialógicas fomentadas nas escolas de CA, a Metodologia Comunicativa cresce rompendo com elitismos e promovendo “a força dos argumentos e não o argumento da força”.

“O conhecimento não é em nenhum caso patrimônio de especialistas”, pontua Goméz, para quem a melhor maneira de ampliar nosso conhecimento é trabalhar conjuntamente, compartilhando de forma solidária nossos saberes e formas de fazer.  

Em entrevista ao portal de CA, o pesquisador falou sobre os impactos sociais, políticos e científicos identificados pela Metodologia Comunicativa Crítica em Comunidades de Aprendizagem espanholas e sobre a importância de ampliar as vozes participantes nos processos de produção do conhecimento. Confira a entrevista completa a seguir.

Portal de CA - Durante a formação você disse que o objetivo da Metodologia Comunicativa Crítica (MCC) não é apenas a produção de diagnósticos sobre a realidade, mas a construção coletiva de impactos sociais, políticos e científicos. Há, portanto, uma mudança de perspectiva, mas também uma mudança importante de postura do pesquisador. Quais são os principais aspectos desta perspectiva e nova postura proposta pela MCC?

Aitor Gómez, pesquisador do CREA

Aitor Goméz - No CREA sempre trabalhamos considerando como poderíamos incidir positivamente na cidadania com nossas pesquisas, e para isso, o uso da Metodologia Comunicativa Crítica (MCC) sempre foi chave. A interpretação coletiva da realidade levada a cabo entre pesquisadores e não pesquisadores sob uma orientação comunicativa se dirige não apenas à produção de diagnósticos sobre a realidade, mas também à transformação dessa realidade.

O impacto científico, político e social que está sendo exigido hoje por instituições de todo o mundo, já havia sido alcançado por meio de pesquisas realizadas no final dos anos 90 e início do século XXI que utilizavam Metodologia Comunicativa. O exemplo mais claro de pesquisa que teve um elevado impacto científico, político e social no início do século XXI foi o Workaló.

Por meio dela, foram publicados artigos em revistas de alto impacto científico, foi conquistado o reconhecimento do povo cigano pelo Parlamento Europeu, espanhol e catalão (impacto político) e como consequência da inclusão dos principais resultados da pesquisa no Plano Integral do Povo Cigano (impacto político) temos conquistado importantes melhorias educativas, trabalhistas e sociais para pessoas ciganas (impacto social).

A metodologia comunicativa, baseada nas exigências de uma sociedade cada vez mais dialógica e tendo sido construída com profundos debates teóricos com os principais autores das ciências sociais, tem respondido perfeitamente às novas exigências de impacto social.

Portal de CA - A concepção de Aprendizagem Dialógica proposta pelas Comunidades de Aprendizagem traz para o universo da Educação, da escola e da sala de aula, princípios que a Metodologia Comunicativa estabelece para a investigação científica. O princípio do Diálogo Igualitário é um deles. Quais são as principais similaridades que você identifica entre a MCC e a proposta de CA. Que elementos elas compartilham?

Aitor Goméz - A concepção de Aprendizagem Dialógica é aplicada na Educação, assim como a Metodologia Comunicativa é aplicada em projetos de pesquisa. O ponto de partida em ambos os casos é comum, respondendo com êxito ao giro dialógico em nossas sociedades.

A MCC segue uma série de postulados que lhe conferem esse caráter de transformação que a caracteriza. Entre esses postulados se encontra a ruptura com o desnível metodologicamente relevante, isto é, romper com as diferenças entre sujeito e objeto na pesquisa. Se potencializa a racionalidade comunicativa e o sentido comum e crítico das pessoas participantes e para isso é básico e fundamental partir de um Diálogo Igualitário entre todas as pessoas participantes.

Além do Diálogo Igualitário, também compartilham a ênfase em que as pessoas participem em todos os momentos, já que é a base do seu sucesso. No caso da Metodologia Comunicativa isso é assegurado pela aplicação da organização comunicativa da pesquisa e em Comunidades de Aprendizagem a partir de uma organização democrática das escolas, onde se destacam as comissões mistas de trabalho, já que nelas estão representadas todas as pessoas da comunidade.

Portal de CA - Que benefícios o Diálogo Igualitário pode trazer para o campo da Educação?

Aitor Goméz - O Diálogo Igualitário deveria ser a base das ações educativas que queiram ser bem sucedidas hoje em dia. Nos encontramos em sociedades cada vez mais dialógicas e a partir da Educação devemos dar resposta a esse fator. O Diálogo Igualitário deve, portanto, estar diretamente relacionado à ação, tal como teorizou e praticou Freire, trata-se de aplicar a ação dialógica para transformar a Educação e, com ela, o mundo.

O Diálogo Igualitário deve estar sempre ligado à aprendizagem instrumental. Trata-se de obter os melhores resultados educativos para todos os alunos e, certamente, nesse ponto, o Diálogo Igualitário deve andar de mãos dadas com outros princípios, como a Solidariedade ou a Criação de Sentido, se quisermos contribuir para melhorar a Educação.

Portal de CA - Na formação você disse também que não pode se considerar especialista aquele que não dialoga com o mundo da vida. Pensando a Educação do século XXI, podemos considerar educador alguém que não dialoga de forma igualitária com seus alunos? Quem não dialoga consegue cumprir o seu papel de educador?

Aitor Goméz - No século XXI, se quisermos melhorar nossas sociedades por meio da Educação, devemos partir de concepções duais da realidade, onde analisemos por igual sistema e mundo da vida. Os especialistas (ou, melhor dizendo, aqueles que se consideram especialistas) que não levam em conta o mundo da vida e baseiam suas análises naquilo que acreditam ser correto sem contar com a voz das pessoas participantes, e muito especialmente daquelas tradicionalmente mais excluídas, chegam a análises distantes da realidade e, em muitos casos, reproduzem as desigualdades existentes.

Infelizmente, há educadores e educadoras que não promovem o Diálogo Igualitário com os seus alunos e muito menos com a comunidade (ao não incluí-la nos processos educativos), desenvolvendo sua prática educativa longe da realidade imediata dos estudantes. Felizmente, há também muitos professores que sim, partem de um Diálogo Igualitário com seus alunos para construir o processo de ensino e aprendizagem.

Em ambos os casos somos confrontados com educadores e educadoras, mas como Freire apontava já no final dos anos 60, os primeiros dariam conta de uma educação bancária, enquanto os últimos potencializariam uma educação crítica e transformadora, tanto das próprias pessoas como da realidade. O que precisamos é de educadores e educadoras que fomentem um mundo melhor e isso se constrói por meio de um Diálogo Igualitário.

Portal de CA - Assim como a MCC repensa o lugar social do pesquisador, minimizando as relações de poder, um dos desafios da Educação hoje é justamente o de repensar o papel do professor como autoridade máxima e detentora de todo o saber a ser transmitido. Quais são as principais ações promovidas pelos centros educacionais estudados pelo CREA que têm mostrado bons resultados neste sentido: minimizar relações de poder e entender o conhecimento como construção coletiva?

Aitor Goméz - Certamente, a Metodologia Comunicativa trata de minimizar as relações de poder, busca consensos baseados em pretensões de validade, sempre levando em conta as estruturas de poder nas quais nos encontramos imersos. A interpretação da realidade é sempre realizada em um plano de igualdade, de maneira compartilhada.

Nos centros que são Comunidades de Aprendizagem com os quais trabalhamos nas últimas décadas, se pode constatar que eles buscam também minimizar essas relações de poder. A equipe docente que aplica as Atuações Educativas de Êxito nesses centros educativos desempenha um papel totalmente diferente do papel do professor como possuidor de todo conhecimento e autoridade. A própria organização do centro é democrática, dando voz a todas as pessoas que queiram participar do projeto educativo mediante, entre outras atuações, das comissões mistas de trabalho.

O Modelo Dialógico de Prevenção e Resolução de Conflitos também gera um clima de trabalho e convivência cada vez mais distante das relações de poder nesses centros. As interações que se produzem sob este arcabouço buscam a construção coletiva da realidade e o fazem de maneira crítica, por meio de um diálogo igualitário e intersubjetivo que promove a igualdade contra as relações de poder.

Portal de CA - Nos últimos anos, você coordenou uma pesquisa, a Edufam, sobre os impactos da Participação Educativa da Comunidade e da Formação de Familiares nas Comunidades de Aprendizagem. Quais os principais resultados desta pesquisa e que aspectos você gostaria de destacar para as escolas que estejam implementando estas AEEs?

Aitor Goméz - Após três anos de trabalho, os resultados têm sido extensos e muito positivos. Gostaria de destacar apenas as características da Formação de Familiares com impacto positivo extraídas do trabalho direto com familiares de oito centros que funcionam como comunidades de aprendizagem em cinco comunidades autônomas espanholas: participação das famílias na tomada de decisões; liderança dialógica; representatividade dos grupos vulneráveis ​​entre os/as participantes na formação e promoção da diversidade nos programas formativos; estratégias para facilitar a conciliação familiar; êxito educativo dos filhos/as como objetivo explícito da formação; promoção da aprendizagem instrumental; altas expectativas em relação às pessoas participantes; formação baseada em evidências científicas; climas positivos de aprendizagem; promoção da solidariedade; validação dos conhecimentos adquiridos por meio de certificados; apoio a centros educativos e parceria com outros serviços e agentes do entorno; envolvimento da equipe de gestão e do corpo docente.

Portal de CA - Nos últimos 15 anos, o Brasil ampliou o número de pessoas pobres, negras, indígenas, enfim, de minorias étnicas e culturais, na Universidade. São pessoas que deixam de ser os habituais “objetos de estudo” para se tornarem pesquisadoras, autoras, produtoras de conhecimentos acadêmicos, literários etc. Surge, neste contexto, uma necessidade não apenas de valorizar suas identidades culturais, mas também de repensar os próprios currículos escolares para incluir estas vozes acadêmicas que partem de novos “lugares de fala”. Há uma discussão neste sentido no CREA, dentro da Metodologia Comunicativa? Como você pensa esta questão?

Aitor Goméz - A questão da inclusão da diversidade cultural no currículo é um tema de grande importância e grande relevância. É uma questão que tem sido e é o foco do nosso trabalho. Dentro dos princípios da Aprendizagem Dialógica, encontramos a "Igualdade das Diferenças", que dá uma resposta direta a essa questão, já que apresenta o tratamento da diversidade a partir da igualdade. A inclusão deste princípio no currículo teria um enorme efeito positivo no tratamento da diversidade.

A implementação de Atuações Educativas de Êxito e, em particular, as Tertúlias Literárias Dialógicas são um exemplo claro de como trabalhar essa diversidade, superando o elitismo cultural que permeia certas práticas educacionais. As pessoas que têm sido habitualmente "objetos de estudo", provenientes de diversos contextos e culturas, sem uma bagagem acadêmica, enfrentam a leitura e o debate de clássicos da literatura universal. Elas são um exemplo claro de como superar os discursos reproducionistas em Educação e um exemplo claro de transformação pessoal, social e educativa.

Também a partir da Metodologia Comunicativa se fomenta a ruptura com o elitismo, mas neste caso na relação do pesquisador conhecedor da realidade em relação ao objeto de estudo (ou seja, as pessoas participantes). A MCC promove a força dos argumentos e não o argumento da força, assim como acontece nas Tertúlias e tem muito a ver com o princípio da diversidade cultural orientada para a igualdade.

No CREA tivemos e temos equipes de pesquisa multiculturais, que conseguiram melhorar o acesso de minorias não apenas à Universidade, mas também a projetos de pesquisa com impacto social. Trabalhando de maneira conjunta pessoas de diferentes culturas, religiões, estilos de vida... e aplicando os princípios da Metodologia Comunicativa nas pesquisas realizadas há mais de 25 anos, temos conseguido quebrar muitos estereótipos e incentivar a presença das minorias na Universidade.

Para saber mais, acesse os artigos disponíveis na biblioteca do portal:

Metodología Comunicativa Crítica: transformaciones y câmbios en el s. XXI, de Aitor Gómez

Beyond Action Research: the communicative methodology of research, by Aitor Gómez, Carmen Elboj and Marta Capllonch

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