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Mais tempo na escola: novas formas de ensinar e aprender

30/08/2019

Mais tempo na escola: novas formas de ensinar e aprender

Saiba como a Biblioteca Tutorada pode ajudar sua escola a multiplicar as oportunidades de aprendizagem

Uma das sete Atuações Educativas de Êxito (AEEs) de Comunidade de Aprendizagem, a Biblioteca Tutorada (BT) visa estender o tempo de estudo de crianças e adolescentes, ampliando de forma equânime o acesso à aprendizagem instrumental.

Lições de casa, exercícios sobre conteúdos vistos em sala, leituras compartilhadas, tertúlias dialógicas, plantão de dúvidas, jogos e pesquisa são algumas das práticas indicadas. As atividades podem ocorrer no contraturno ou em outro horário, diferente do período regular de aula.

A proposta é “manter a escola aberta para quem quer estudar”, explica a diretora Reginéia Tavares da Silva, que iniciou a implementação da AEE na EM Benedicta Geralda de Souza Barbosa (Socorro/SP), em 2018. Isso é importante para garantir que estudantes possam acessar diferentes oportunidades de aprendizagem e melhorar seu desempenho.

Como são os encontros? 

“A gente faz a lição de Língua Portuguesa, de Matemática, só que a gente aprende um pouco mais”, define Isabelly Marques, aluna do 4º ano. “Às vezes a gente lê uma história e depois reescreve a história que a gente leu”, conta Nicolas Kauan, 4º ano. “Esses dias a gente teve que escrever uma carta”, complementa Maria Giovanna, do 5º ano.

Na escola Benedicta, as atividades da Biblioteca Tutorada estão focadas em conteúdos de Língua Portuguesa e Matemática planejados por três professoras adjuntas. Mas é possível organizá-la com ajuda de voluntários que podem ser familiares, alunos mais velhos ou funcionários, por exemplo. É papel do voluntário mediar o diálogo entre estudantes, organizar empréstimo de livros e materiais da escola, manter o cuidado com o espaço do encontro e planejar as atividades do dia.

Estudantes da EM Benedicta Geralda de Souza Barbosa, participantes da Biblioteca Tutorada

A coordenadora pedagógica, Marisa Rosa Ferreira, explica que a escola enfrenta dificuldade para manter a participação ativa de familiares pela ausência de uma comunidade residente no entorno. Neste segundo semestre, porém, sua meta é garantir a formação de uma Comissão Mista que auxilie nesta questão. “Se a gente tiver as Comissões fortes, vamos ter mais sucesso nas Atuações Educativas de Êxito. A gente precisa do voluntário”, avalia.

Na EMEF Adirce Cenedeze Caveanha (Mogi Guaçu/SP), a gestão driblou a ausência de voluntários convidando estudantes para mediarem os encontros da Biblioteca Tutorada como voluntários. As atividades funcionam neste esquema desde o segundo semestre de 2017, e apenas este ano passou a contar com o apoio de uma mãe de aluna, Evelândia Silva, que acompanha os encontros do 6º e 7º ano.

“Eu não tenho dúvida nenhuma de que o papel do voluntário na Biblioteca Tutorada é fundamental, mas aqui se a gente não começasse sem ter familiar, não teria feito. Os alunos querem vir, ontem nós tivemos uma Biblioteca Tutorada aqui com quase trinta alunos”, explica o coordenador pedagógico, Vanderlei Gabricio.

Na escola Adirce, a Biblioteca Tutorada é desenvolvida nas turmas de 6º a 9º ano. Cada turma realiza um encontro semanal de duas horas de duração. 

A estudante Ana Julia Campos, do 7º ano, concorda que a presença da voluntária tem ajudado o grupo a se planejar melhor e a eleger prioridades na hora de estudar. “Ela sempre ajuda a gente a botar em ordem as coisas, pergunta se tem prova no dia, se vai ter algum projeto legal na semana, pra sempre fazermos primeiro o que é mais necessário”, diz a aluna.

Assim como a colega, Isabelly Lohanny, 7º ano – que é uma das alunas voluntárias incumbida de auxiliar sua turma nos estudos de Matemática – também identifica vantagens na presença de um familiar. “Às vezes vira bagunça quando não tem um adulto por perto”, reconhece.

Estudantes da EMEF Adirce Cenedeze Caveanha participam da Biblioteca Tutorada acompanhados por mãe voluntária

Para Evelândia, a presença do voluntário é importante também para resgatar a proximidade entre familiares e estudantes. “Eu acho importante mostrar que você tem o interesse, o carinho por eles, e uma atenção maior. Eles se sentem mais acolhidos, mais motivados e mais importantes”, acredita. A expectativa é que com a atividade em curso mais familiares se mobilizem para ajudar. “Se a gente tivesse um número maior de pais, facilitaria muito, a gente conseguiria trabalhar muito mais, com muito mais crianças, até de repente com todas as séries”, avalia a mãe.

Prática inclusiva 

A proposta é uma alternativa inclusiva, que supera a segregação dos alunos que precisam de apoio. Diferente do reforço escolar tradicional, na Biblioteca Tutorada estudantes com variados níveis de desempenho participam juntos. “Não é só a criança que tem dificuldade, não é uma recuperação paralela: todas as crianças da turma são convidadas”, afirma Reginéia.

Ao integrar diferentes agentes educativos em momentos de estudo para além da sala de aula, a Biblioteca Tutorada multiplica as possibilidades de interação e favorece a construção coletiva de conhecimento. Lev Vygotsky, autor de referência do projeto, preconizou a interação social como origem e motor fundamental da aprendizagem. Em seu livro "A formação social da mente", ele diz: “o aprendizado desperta vários processos internos de desenvolvimento, que são capazes de operar somente quando a criança interage com pessoas em seu ambiente e quando em cooperação com seus companheiros”.

Alunas da escola Benedicta realizam juntas atividades da Biblioteca Tutorada

Na escola Benedicta, alunos de 4º e 5º ano participam juntos da BT, se ajudando mutuamente. A heterogeneidade do grupo permite a interação entre diferentes modos de ensinar e aprender, nas quais a potência de cada um é valorizada. “As atividades são feitas em grandes grupos, pequenos grupos e em duplas. Juntamos crianças que têm uma certa facilidade com aquela que não tem. Então isso também alavanca bastante”, acredita Adriana Pedroso, professora adjunta e uma das responsáveis pela BT.

No segundo ano de implementação da AEE na Benedicta, a escola já conta com um grupo assíduo e crescente de estudantes. “Os que vêm são frequentes mesmo. Aí a gente tem crianças com mais ou menos dificuldade, e todas interagem. Inclusive nós temos participando da Biblioteca Tutorada as crianças de Inclusão”, pontua a diretora Reginéia, referindo-se à participação de estudantes com deficiência.

Os encontros duram uma hora e meia e acontecem duas vezes por semana, nos períodos da manhã e da tarde, após uma hora de atividades físicas integradas ao programa. Aos poucos, as crianças desenvolvem o hábito de estudar sozinhas, de concentrar-se, de pesquisar e selecionar os materiais necessários com mais autonomia.

Ocupar espaços, diversificar recursos

Apesar do nome, a Biblioteca Tutorada não precisa de uma biblioteca para acontecer. Ela pode ser realizada em diferentes espaços da escola ou da comunidade. “Tem aulas que a gente ministra lá fora, no sol, no jardim, no pátio. A gente explora todos os ambientes da escola”, afirma Adriana Pedroso. As professoras adjuntas viram na BT uma oportunidade para dar vida a espaços da escola que eram subutilizados.

Uma das experiências que elas destacam é a “descoberta do perímetro”.  “Eles não conseguiam entender o que era, então nós pegamos todo o material de medida e fomos para o refeitório, fomos para os jardins da escola, fomos para a rua aqui em frente, para eles entenderem as medidas na prática, e eles amaram”, comemora Pedroso.

Estudantes da EM Benedicta aprendem a medir perímetro em atividade no jardim da escola

Para que a ampliação do tempo de estudo não caia no “mais do mesmo”, é importante que sejam criados processos de aprendizagem mais dinâmicos e motivadores. Da mesma forma que a BT levou a escola a potencializar outros espaços como espaços educativos, estimulou entre as tutoras a necessidade de buscar outros formatos e linguagens.

Primeiros resultados

“No dia a dia [da Biblioteca Tutorada], eles pegam detalhes que na sala de aula eles não conseguem pegar. Mas para isso funcionar eu também precisei sair do comodismo e procurar um jeito novo de trabalhar [os conteúdos]”, analisa Adriana de Fátima Pereira, professora adjunta que se divide com Pedroso na mediação dos encontros da manhã.

Aos poucos, a ampliação do tempo de estudo vai dando resultado e estudantes participantes já reconhecem benefícios trazidos pela AEE. “A Biblioteca Tutorada me ajudou na Língua Portuguesa, que eu sou bem ruim, escrevia quase tudo errado. Também melhorei um pouco mais na Matemática, que eu já sou um pouco melhor”, avalia Felipe Ferreira, do 4º ano.

Alunos trabalham juntos durante Biblioteca Tutorada

Além da aprendizagem instrumental, as crianças destacam outros saberes adquiridos, igualmente importantes. “Eu aprendi a ficar em grupo”, diz Rebeca Loren, do 5º ano. E a colega Ana Júlia de Toledo, 5º ano, complementa: “a BT me ensinou a não querer sempre ganhar”.

Os encontros têm ajudado a estreitar os vínculos entre estudantes e professoras adjuntas em uma perspectiva de mediação do conhecimento. “Tem aulas que a gente procura auxiliar o mínimo, para favorecer a interação entre eles: é tão fantástica, que a gente recua pra deixar que ela aconteça. Eles têm facilidade em compreender o colega, mais do que a gente”, conclui Pedroso.

 

COMO ORGANIZAR?

Como é uma Biblioteca Tutorada? Clique para ampliar

Caderno: Biblioteca Tutorada - veja mais informações sobre como organizar e aprofundar conhecimento acerca dessa AEE

Estudo - este trabalho de conclusão de curso realizado por Fernanda Simony Previero Ciarlo, sob orientação da pesquisadora Roseli Rodrigues de Mello (UFSCar), analisa as contribuições da Biblioteca Tutorada em uma escola pública de São Carlos/SP

Vídeo - assista o depoimento de Carmen Elboj Saso, professora no Departamento de Sociologia e Psicologia da Universidade de Zaragoza (ESP) e coordenadora das Comunidades de Aprendizagem de Aragão, Espanha

EAD - faça o módulo do curso online dedicado à Biblioteca Tutorada

 

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