Notícias

Gestoras escolares de sete escolas e suas belas histórias

20/10/2016

Gestoras escolares de sete escolas e suas belas histórias

Uma menina que descobre o amor pelos livros de Machado de Assis, o aumento do respeito entre os alunos e deles com os professores, a mudança de comportamento de um garoto tímido que passa a se sentir seguro pra falar sobre o que pensa e sente, a intensificação da acolhida de uma turma a uma colega surda, a substituição da reclamação pela busca por soluções nas reuniões de equipe. Essas e outras histórias são fruto da implementação do projeto Comunidade de Aprendizagem e foram relatadas pelas gestoras escolares contempladas na 1a Ação de Reconhecimento Eu quero meu acervo para as Tertúlias Dialógicas. Como forma do reconhecimento, as escolas em que atuam receberam livros clássicos para enriquecer ainda mais o trabalho realizado.

Nós escrevemos uma reportagem indicando os nomes escolhidos na ação, além de textos das quatro técnicas de secretarias selecionados.

Aqui, você conhece a seguir as histórias relatadas pelas sete gestoras escolares:

 

Clara Griziela de Morais Ribeiro

EM Professora Diomar Miranda Boni

Mairiporã, SP

A EM Professora Diomar Miranda Boni é uma Comunidade de Aprendizagem desde 2015. Temos uma Comissão Mista atuante, Grupos Interativos mensais e Tertúlias Literárias quinzenais para todas as etapas de ensino, da Educação Infantil ao 4º ano do Ensino Fundamental. Depois de passarmos por uma formação na Secretaria de Educação, eu dei continuidade às propostas nos HTPCs da escola com os professores. Todos se encantaram com e passaram a administrar seus horários para incluir as atividades na rotina pedagógica.

As Tertúlias, além de auxiliar na aprendizagem, com a análise e a interpretação de obras, trabalham valores como o respeito, a ética e a cidadania. Essa atividade permite ao professor direcionar seu olhar para o aluno, compreendê-lo melhor e até auxiliá-lo quando necessário, pois o estudante tem o tempo certo para se expor, compreender a opinião do colega e argumentar, fazendo relação da obra com seu cotidiano.

Na coleta dos sonhos de todos, até os pequenos da Educação Infantil escreveram o que queriam, com a ajuda dos professores. Já conseguimos realizar diversos dos sonhos coletivos que tivemos, mas um deles mobilizou muito as mães dos alunos, que me fez ver o quanto a comunidade abraçou o projeto. Um dos maiores sonhos de todos era a revitalização de nosso parquinho. Cerca de 80% dos alunos pediram isso. Então, a Comissão se organizou para levantar recursos. As mães participantes sugeriram montar uma barraca de doces na Festa Junina da escola, doaram os doces que fizeram, montaram a barraca e venderam os produtos. Graças ao empenho de todos, conseguimos arrecadar a verba suficiente para restaurar os brinquedos quebrados e adquirir outros novos.

Acredito que esse envolvimento das famílias é um dos maiores ganhos do projeto. Vemos que para elas á também uma forma de valorização e de ampliação da aprendizagem e do acesso cultural. Estamos localizados em uma área industrial e quase a totalidade dos alunos vem estudar de transporte escolar. Então, sabemos bem da dificuldade que é para os pais se locomoverem até a instituição para ajudar no que for. E mesmo assim, hoje temos cerca de 20 voluntários nos Grupos Interativos.

Claro que não foi sempre assim. No começo havia poucas pessoas e eu via que as que vinham acabavam ficando sobrecarregadas por participar de grupos de diversos anos de ensino. Então, pensamos em uma nova estratégia para motivar mais gente a se voluntariar. Começamos a chamar os pais por turma, ou seja, para eles atuarem na classe onde estão seus filhos. Deu supercerto! Algumas mães nos procuraram para falar o quanto passaram a valorizar o que era feito em sala. Elas começaram a entender melhor as propostas desenvolvidas. Além de os familiares se engajarem mais, pois queriam acompanhar suas crianças na escola, isso foi transformador para os alunos, que ansiavam pela participação de seus responsáveis. Também incentivamos que os alunos maiores, do 3º e 4º anos, sejam voluntários nos Grupos dos menores, que ocorrem no turno inverso. Temos até fila de espera para isso. Além de auxiliar os pequenos, os estudantes mais velhos consolidam aprendizados e criam um vínculo ainda maior com a instituição.

 

    

Temos um grupo de WhatsApp pelo celular com as quatro escolas participantes do Comunidade de Aprendizagem na nossa rede e sempre trocamos boas práticas e experiências com por ele, como nossa Tertúlia de Arte, em que uma professora do 1º ano trabalhou o quadro O quarto, de Vincent Van Gogh. Os alunos fizeram uma apreciação da obra com o auxílio da docente. Foi surpreendente ver como eles conseguiram fazer observações que fugiam do óbvio. Um menino, por exemplo, disse: “Pela cor na janela, deve ser o pôr do sol”. Essa Tertúlia gerou um projeto nas aulas de Arte posteriormente, o que foi bacana para ampliar ainda mais a aprendizagem da turma. Também sempre trocamos livros entre as escolas, para ampliar nossa possibilidade de trabalho.

A transformação em toda a comunidade escolar é visível. Antes, os pais só eram chamados para falarmos de problemas ou questões pontuais. Agora, eles estão conosco no dia a dia. Com eles aqui, do nosso lado, vimos que valorizam ainda mais nosso trabalho. Juntos, somos mais fortes. Eles dividem as responsabilidades conosco e todo o diálogo é aberto e transparente. Pensamos juntos em como solucionar os problemas e melhorar ainda mais nossa instituição. Até a relação entre os alunos melhorou. E não queremos parar por aqui! Estamos planejando fazer Tertúlias Musicais e ampliar a periodicidade dos Grupos Interativos.

 

Ana Maria Mendonça Bezerra

EM Professora Lireda Facó

Fortaleza, CE

Iniciamos o Comunidade de Aprendizagem em 2015, mas este ano realizamos uma segunda sensibilização para envolver os alunos recém-chegados e os professores novatos. Dos sonhos que tivemos coletivamente, já revitalizamos a biblioteca da EM Professora Lireda Facó, que antes ficava fechada, implantamos as monitorias de classe, com alunos eleitos pelas próprias turmas e instituímos os recreios interativos, com alguns dias de atividades planejadas. Temos Grupos Interativos a cada 15 dias, mas a primeira das Atuações Educativas de Êxito que fizemos foram as Tertúlias Dialógicas Literárias semanais, e já vejo o enorme impacto que elas têm em nossos alunos. Uma em especial me marcou bastante. É a história da jovem que amava ler, mas não tinha livros.

 

  

A Raquel está no 9º ano e não tinha o hábito da leitura, pois não havia obras disponíveis em casa. Quando começamos o projeto, ela frequentava o 8º ano e participava de um dos grupos no contraturno – tínhamos dois, um de manhã e um de tarde. A menina se apaixonou por ler. Frequentava todos os encontros e estava encantada com Dom Casmurro, de Machado de Assis. Em uma das Tertúlias, recebemos a visita de uma pessoa convidada pela Secretaria de Educação, que logo notou o entusiasmo da Raquel ao falar do trecho que havia lido. Um tempo depois, recebemos a obra completa do escritor com um bilhete direcionado à garota. Era um presente da visitante para ela dar início a sua pequena biblioteca em casa. Raquel chorou de tanta emoção.

A jovem me contou que com a iniciativa tinha aprendido a ler de verdade, ou seja, a mergulhar nos livros e apreciar as narrativas. E hoje, já leu todos os livros da coleção que ganhou. Essa aquisição do hábito da leitura por prazer foi nossa maior conquista. A biblioteca agora está viva e todos sempre pegam livros emprestados para apreciar na escola e nos momentos de descanso.

 

Juliana Ormastroni de Carvalho Santos

EM Jorge Bertolaso Stella

Mogi Mirim, SP

Sou vice-diretora da escola desde 2015. Quando cheguei por aqui, a instituição já era uma Comunidade de Aprendizagem desde 2014, mas tomei as rédeas do projeto logo que assumi a função. Começamos com os Grupos Interativos, que acontecem a cada 15 dias. Para conseguirmos os voluntários necessários, que ajudam nos grupos, recorro à velha conversa no portão. É nesse contato frente a frente com as famílias que explico como funciona e convido a todos para participar. Além disso, claro, divulgo nas reuniões de pais. Certa vez, um dos professores trouxe a família toda para participar como voluntária.

Temos também uma Comissão Mista atuante. Pedimos para fazer um banner com a lista dos participantes e sempre aviso a comunidade quando vai ter encontro, que ocorre a cada 15 dias. Com a ajuda de todos, conseguimos realizar diversos sonhos coletivos, como a pintura do pátio, a organização da sala de leitura – que está acontecendo agora – e a instalação do bebedouro. Acredito que ter familiares, alunos, funcionários e docentes envolvidos nas questões da escola tira o peso do diretor em ter de centralizar as decisões e dá voz a todos os impactados pela Educação.

Uma terceira ação colocada em prática foram as Tertúlias Dialógicas Literárias. Para formar os educadores como moderadores, eu sempre faço a primeira moderação para servir de exemplo. Também preparo minicursos com uma apresentação de como conduzir a atividade com o grupo. Esses encontros são a chance de os estudantes terem contato com um bem cultural que muitas vezes não têm chance de ter em outra situação. Quando vemos que alguns alunos têm dificuldade para entender a linguagem de determinados textos clássicos, sentamos para ler junto para que desenvolvam esse lado.

  

Já no primeiro dia, me surpreendeu em ver como os alunos assumiram uma postura reflexiva e crítica sobre o que estavam lendo. Mas o que marcou a toda a equipe foi um episódio em específico. Marcos era um menino extremamente quieto do 3º ano do Ensino Fundamental. Manifesta-se em aula sempre mexendo a cabeça timidamente para dizer sim ou não. Um dia, durante a discussão sobre o texto de A Bela Adormecida, presente no material do Programa Ler e Escrever, do Governo do Estado, ele pediu a palavra, surpreendendo a todos. Com calma, leu a parte escolhida: “Majestade, não fique triste, o seu desejo se realizará logo: daqui um ano a senhora dará a luz uma menina”. Ao falar sobre o trecho, Marcos contou da relação que fez com o nascimento de sua irmãzinha, algo que havia sido muito esperado pela família.

Nós, educadores, percebemos que, o ambiente constituído pelo princípio do diálogo igualitário encorajou o garoto a se colocar, inaugurando uma nova forma de ele se relacionar com os colegas e com a leitura. A iniciativa modifica o modo de agir dos alunos, uma vez que eles precisam saber ouvir, aguardar sua vez de falar e considerar a fala do outro para comentar. Esse é um ganho imensurável, pois envolve um tipo de argumentação que raramente faz parte da nossa sociedade: o argumentar não para vencer uma discussão, mas voltado a apresentar um ponto de vista, descobrir que há modos de pensar diferentes e que também são válidos. Além de ampliar o acesso das crianças a um universo mais amplo e rico, as Tertúlias aumentam também a compreensão que elas têm da própria vida.

 

Maria da Cruz Sousa Santos

EM Antonio Pinto da Silva

Cajamar, SP

O projeto foi implementado na EM Antonio Pinto da Silva em 2014 e eu assumi a instituição como diretora em 2015. A escola está em um local com grandes defasagens sociais, o que refletia na aprendizagem dos nossos alunos e nos altos índices de reprovação. A equipe estava desgastava, com sede por mudança. Acredito que, quando se está em crise, estamos mais abertos a buscar alternativas que nos tire dessa situação. E é exatamente isso que a adesão ao Projeto Comunidade de Aprendizagem vem nos proporcionando.

O grupo passou por todo o processo de implementação. Participamos das formações sobre as Atuações Educativas de Êxito e a primeira a ser iniciada foram os Grupos Interativos, principalmente na área de Matemática. Notamos que divididos em grupos com saberes diferentes, os alunos aprendem com os pares, e o aumento das aprendizagens matemáticas foi significativo. O voluntário de cada grupo garante que todos interajam e participem enquanto o professor pode focar em tirar dúvidas e reforçar os pontos que perceber que a turma tem mais dificuldade.

Para poder conduzir as Tertúlias Dialógicas Literárias, nossos professores fizeram as aulas do curso de EAD oferecido no portal do projeto, além de passar por formação na secretaria de Educação de Cajamar. Os ganhos com esse projeto foram muitos: melhoria da oralidade, construção de argumentos, respeito à opinião do outro, desenvolvimento de senso crítico, além da aprendizagem de habilidades leitoras, como identificar a ideia central em um texto. Ler o mundo por meio dos clássicos, tendo um mediador do pensamento, é fundamental para garantir que a garotada também possa fazer a leitura da realidade em que vive. Refletir sobre o mundo e conseguir verbalizar o que se pensa dele, em minha concepção, é o que impulsiona a transformação na própria vida e na vida em comunidade. No 6º ano, eles estão finalizando a leitura de O Pequeno Príncipe, do francês Antoine de Saint-Exupéry. Também instituímos as Tertúlias em nossos momentos de HTPC e realizamos trocas de obras com outras escolas, para ampliarmos nossas possibilidades de leitura.

 

Por fim, criamos as Comissões Mistas, que está em construção constante. Como a instituição atende alunos de regiões mais afastadas, é difícil que as famílias consigam participar, mas contamos com três mães. Com elas foi possível realizar alguns projetos sonhados coletivamente pela comunidade escolar. Entre eles a reforma do banheiro feminino. Havia problemas de depredação por acharem que não estávamos dando importância para a questão. Pedimos orçamentos, arrecadamos fundos com a realização de eventos e pudemos concluir o trabalho. Com isso, as alunas viram o quanto a escola se mobilizou para realizar esse sonho e não tivemos mais problemas de vandalismo.

Já vinha observando diversas conquistas ocasionadas por essas iniciativas no comportamento dos alunos, porém o que me chamou muito a atenção foi a transformação na postura dos próprios educadores. Antes, era comum que os encontros de Conselho Escolar fossem repletos de reclamações sobre os alunos e problemas de indisciplina, sempre tentando apontar culpados. Agora, o foco da discussão gira em torno do desenvolvimento específico de cada um, dos avanços alcançados e em como podemos aprimorar ainda mais nossa atuação.

Concluímos que algumas respostas para velhas angústias estavam na forma e no modelo de nossas próprias propostas. Percebemos que atividades bem planejadas podem construir as relações saudáveis que queremos e um ambiente de respeito, em que todos se sintam à vontade para participar e motivados a contribuir uns com os outros.

 

Vanessa Corrêa da Silva

EM Maria Dulce David de Paiva

Tremembé, SP

Aqui na escola, o projeto Comunidade de Aprendizagem acontece desde o início de 2014 e já temos diversas práticas que fazem parte de nossa rotina, como os Grupos Interativos, a Biblioteca Tutorada e a Comissão Mista. Com ela, conseguimos realizar nosso sonho de conseguir doações de bolas e jogos para o recreio monitorado nos anos iniciais do Ensino Fundamental. São os estudantes mais velhos que organizam as atividades com os mais novos.

Uma das Atuações Educativas de Êxito mais marcantes para nós são as Tertúlias Literárias, que ocorrem semanalmente em cada turma. Em um desses encontros, presenciei um momento que me emocionou muito. Daniele está no 7º ano e é surda. Ela e outros dois alunos com baixa audição também frequentam as Tertúlias. Depois das leituras dos trechos do livro Sherlock Holmes, do britânico Arthur Conan Doyle, ela também pediu para expor sua opinião. Com o auxílio da intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras), a garota disse: "Para mim, o mais interessante é que o personagem é um menino rejeitado pelos outros. E eu também me sinto assim. Como em casa ninguém sabe Libras, fico isolada em um canto. Ninguém conversa comigo. Gosto de vir à escola, pois aqui há pessoas que me entendem e falam comigo”.

A comoção na sala foi geral! Os demais alunos se sensibilizaram com a história da colega e logo começaram a relatar suas próprias experiências de vida. Muitos também trouxeram histórias de isolamento e palavras de conforto e solidariedade à menina. A partir daí, o grupo ficou ainda mais unido. Agora, os estudantes procuram interagir mais com Daniele e se interessaram pelas aulas de Libras que oferecemos na instituição. Eles também a ajudam nas leituras antes das aulas, já que a menina ainda apresenta dificuldade para ler em casa. A inclusão ganhou nova cor.

  

O ganho que tivemos foi grandioso, principalmente em relação à comunicação e à empatia. Os alunos passaram a se preocupar mais uns com os outros. Isso porque esses encontros permitem que eles vivam os valores, o que facilita que se apropriem deles. É algo desenvolvido, não imposto. O diálogo e o respeito às opiniões alheias são premissas básicas.

Por meio das Tertúlias Dialógicas Literárias eles têm a oportunidade de conhecer livros diversos e relacionar as histórias com a própria vida, construindo pensamento crítico e a capacidade de interpretação. Com isso, a aprendizagem também avançou significativamente. Nos anos finais, nunca atingíamos a meta do Ideb e agora conseguimos! Tivemos nota 5 em 2015, sendo que o índice anterior, de 2013, havia sido 3,8.

 

Débora Thomaz

Ginásio Carioca Epitácio Pessoa

Rio de Janeiro, RJ

O projeto Comunidade de Aprendizagem começou na escola em 2013, antes de eu assumir a instituição como diretora. Muitas das ações já estavam acontecendo, como os Grupos Interativos, as Tertúlias Literárias, a Biblioteca Tutorada e as Comissões Mistas. Em 2015, quando cheguei, tivemos de refazer a sensibilização da comunidade, pois muitos alunos eram novos.

As Tertúlias são semanais e ocorrem em todas as turmas. As famílias participam como voluntárias. Fiquei muito feliz quando a mãe de uma aluna do 7º ano nos relatou em um encontro que essa atividade está sento um momento de redescoberta da leitura para ela. Para as famílias, é também uma forma de entender o que está sendo desenvolvido na escola, com os filhos, e como isso afeta a aprendizagem. Já para os alunos, é a oportunidade de escutar outras interpretações de um mesmo texto. Dessa forma, há uma construção de sentido e a promoção do respeito e do diálogo igualitário. Além disso, possibilita uma cultura da leitura e reflexão inclusive ao professor, que muitas vezes se afasta desse hábito por diferentes razões, entre elas, a falta de um tempo reservado a leitura.

Desde 2015 também implementamos mais uma Atuação de Educativa de êxito, que são as Resoluções Dialógicas de Problemas. Sempre que nos é demandado pelos alunos ou quando identificamos que uma turma está com dificuldade em algo, propomos uma hora de Resolução Dialógica. Os próprios estudantes têm a chance de escrever em papeis individuais o que mais os incomoda. Abrimos todos os papeis e discutimos sobre o que foi colocado. Então, juntos, os alunos tentam pensar em algumas estratégias para solucionar os problemas. Depois de um mês, voltamos a nos reunir para saber como estão as ações e se as questões foram revertidas.

No início do ano, fizemos uma com uma classe no 9º ano. A turma estava com muitos conflitos de convivência e eram comuns reclamações tanto por parte dos alunos quanto dos professores. Nos papeis escritos pela garotada, ficou evidente que muitos se incomodavam com o excesso de conversas paralelas e brincadeiras fora de hora em sala. Então, eles mesmos sugeriram reorganizar a sala, desfazendo as “panelinhas”. Deixamos uma cartolina com os papeis exposta em sala e outra com as estratégias propostas por todos. Nesse caso, percebemos uma melhora significativa no ambiente em sala. Não somente pela mudança de lugares, mas por todos perceberem o incômodo nos colegas. A moderação feita por mim junto com os docentes no processo de colocação dos problemas e na reflexão sobre eles.

Agora, há sempre um diálogo em busca de melhoria no cotidiano escolar. Com isso, os alunos são protagonistas na construção coletiva de um ambiente propício à convivência e à aprendizagem.

 

Vanessa Garcia Sanches

EM Professora Daisy Rollemberg Trefíglio

São José do Rio Preto, SP

Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada...”

Foi depois da leitura do poema A Casa, de Vinicius de Moraes, durante um dos encontros semanais de Tertúlia Dialógica Literária realizados com os pequenos da Educação Infantil, que percebi o quanto essa ação era transformadora. Um menino disse que a casa descrita na poesia seria a barriga da mãe à espera do bebê. Outra criança acrescentou: “É verdade! Na barriga da mamãe não tem teto, não tem nada”. Observamos o quanto essas crianças, de apenas 5 anos, já conseguem fazer relações e expor seus pensamentos. Para nós, educadores que acreditamos na potencialidade das aprendizagens na infância, isso foi extremamente significativo.

Em outra sala de crianças de 5 anos, a discussão acontecia sobre o clássico João e Maria, dos irmãos Grimm. Uma das meninas destacou o trecho em que os personagens se perdem na floresta e disse saber como eles se sentiam, pois seu pai havia também ido embora e não voltado mais. Nesse instante, todos a acolheram carinhosamente.

Fazemos as Tertúlias em todos os anos de ensino. É uma chance para que nossos alunos tenham contato com textos clássicos, que talvez não tivessem em casa. Mas não limitamos essa oportunidade a eles. No caso dos pequenos, enviamos livros para serem lido pelos pais com eles. Para envolvê-los, escrevemos um bilhete contando sobre o projeto e como a atividade pode ser feita. Os resultados são incríveis. Uma mãe nos relatou que estava adorando poder ler aquelas histórias e que nunca tinha tido contato antes com os textos escritos daquela forma, tão bonita e completa. Descobrimos que ela nunca havia lido os contos de fadas em boas versões, apenas histórias simplificadas. Nesse momento, percebemos a barreira cultural que a escola rompe ao enviar esses textos para que as famílias possam ler em casa. Nossa escola está localizada na periferia da cidade, em uma região carente de recursos e opções culturais e de lazer. Não temos no bairro nenhuma biblioteca, centro cultural ou esportivo. Por isso, sabemos da importância do nosso trabalho pedagógico.

Certa vez, também fizemos uma atividade em que os alunos do 3º ano do Ensino Fundamental liam poesias para as crianças da Educação Infantil. Foi muito bacana poder observar cada dupla em um canto da escola, alguns sentados embaixo das árvores, lendo por prazer. As tertúlias potencializam muito as aprendizagens e diversificam os sentidos dos textos para os alunos. Um ajuda o outro a construir significados sobre a leitura. Também influencia nas relações, contribuindo para que desenvolvam o respeito, a solidariedade e o acolhimento ao outro.

Para nos ajudar em outra Atuação Educativa de Êxito, os Grupos Interativos, convidei os adolescentes de uma escola perto da nossa para serem voluntários. A troca entre eles e as crianças pequenas ajuda a todos. São visões diferentes sobre o objeto de estudo que fazem com que o conhecimento seja desenvolvido reunindo diferentes pontos de vista. Temos duas Comissões Mistas atuantes e já realizamos quase todos os sonhos que tivemos coletivamente, como a melhoria de nosso jardim e a revitalização da biblioteca. Atualmente, elas estão empenhadas em organizar uma horta na escola.

Sou coordenadora pedagógica da instituição e apaixonada por todas as ações do Comunidade de Aprendizagem, que existe aqui desde 2015. O projeto tem tudo a ver com a concepção de ensino que temos de escola, de diálogo igualitário e incentivo à leitura. Por isso, todo o corpo docente abraçou a causa e nem preciso mobilizá-los mais. Posso dizer hoje que ser uma comunidade de aprendizagem já é uma prática que está consolidada.

 

Por Fernanda Salla

Deixe seu comentário