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"A experiência com a Comunidade de Aprendizagem envolve meu resgate como profissional"

15/10/2018


Histórias de transformação: Leonardo Viana de Lima, professor de Ciências (Rio de Janeiro/RJ)

A experiência com a Comunidade de Aprendizagem envolve meu resgate como profissional. Atuo há cinco anos em uma escola municipal na cidade do Rio de Janeiro, Ginásio Carioca Aldebarã, situada na comunidade do Antares, em Santa Cruz. A escola experimenta uma dinâmica particular promovida pelas condições socioeconômica de onde está inserida; envolvendo violências (no plural mesmo), tráfico de drogas, segregação social, entre outras. Nossos alunos, por viverem e conviverem nesse ambiente, trazem para o espaço escolar todos os reflexos disso. E, consequentemente, isso reflete no processo de ensino-aprendizagem.

Lembro que certa vez, muito entristecido por ver que meus esforços como profissional não apresentavam resultados, peguei minhas coisas e saí de sala. Abandonei a classe e estava decidido a procurar a administração para abrir o processo de minha exoneração. Eu decididamente não suportava aquela condição.

A inspetora, ao observar essa atitude atípica, me chama para conversar e me fez mudar de ideia. Voltei para a classe e, desde então, passei a agir de forma com total indiferença a tudo que acontecia na escola. Quando fui convidado pela direção da escola para participar de uma reunião para a apresentação das metodologias na Comunidade de Aprendizagem, tive um pensamento tipicamente observável em meus colegas: “mais uma proposta inútil, completa perda de tempo”.

Ao participar das atividades durante a reunião, tive outro pensamento: “nunca que aqueles alunos conseguirão acompanhar o desenvolvimento dessas metodologias”. E fiquei o restante da reunião completamente apático e desmotivado. Talvez, naquele momento, eu estivesse agindo exatamente como meus alunos, os quais eu tanto criticava.

No início do ano seguinte, não me preocupei em desenvolver nenhuma das propostas. Só comecei depois de muita insistência de duas professoras que sempre admirei como exemplos de comprometimento e dedicação à educação. Os alunos escolheram uma obra inesperada: Romeu e Julieta. Para mim, que não tenho nenhum gosto por esse gênero, ter uma tragédia como recurso foi o segundo desafio (lembrando que a primeira foi minha resistência à proposta).

Antes de começar a Tertúlia de Romeu e Julieta, precisei ler a obra e fazer uma pesquisa sobre o contexto histórico de sua produção. E, nesse momento, tive boas recordações de meus tempos de aluno e do quanto gostava das aulas de História sobre o Renascimento.

Com a intenção de aumentar o interesse dos alunos pela obra, iniciei com a pergunta: “alguém conhece a história de Romeu e Julieta?”. A maioria afirmou ter ouvido falar dela, mas que nunca tinha lido o título (inclusive eu). E, entre uma fala e outra, um deles diz uma frase simples: “quem nunca sofreu por amor, né, professor?!”. E no decorrer da atividade, a partir da leitura do livro, ouvi os conflitos, as experiências e os dramas aos quais nunca antes dera oportunidade para que os alunos relatassem durante minhas aulas, porque eu considerava que o cumprimento eficiente do currículo era a garantia de sucesso no processo de ensino-aprendizagem.

Naquele momento, tive um clarão de lucidez, ao ver que minha condição de professor não me fazia diferente deles e que os tempos de aulas seriam enriquecidos com a participação de todos de uma maneira horizontalizada. E mais do que cumprir o currículo ou prepará-los para o mercado de trabalho, deveríamos formá-los para a vida.

Desse momento em diante, acredito que começou minha mudança como professor e me senti feliz por compartilhar aqueles momentos de leitura e conversa com eles. Quando concluímos a leitura da obra, desejamos continuar juntos com outras atividades relacionadas à obra de Shakespeare, mesmo enfrentando críticas dos meus colegas de trabalho, que questionavam minha competência para ser o mediador da Tertúlia com a turma, porque eu sou professor de Ciências.

Em conjunto com as professoras Milena (Sala de leitura) e Ronisia (Geografia), as mesmas que me motivaram a participar, realizamos com os alunos uma releitura de Romeu e Julieta em fotonovela, em que eles reescreveram a história usando elementos da realidade deles - construção dos personagens, vocabulário peculiar, entre outros - e também apresentamos para a comunidade escolar uma peça teatral com a adaptação da obra.

Continuei acreditando na proposta e ampliei para textos relacionados a minha disciplina, utilizando textos científicos. Os resultados também me surpreenderam, ao ver que eles superaram os limites do ambiente escolar e aproximaram os conteúdos escolares do seu cotidiano, sendo capazes de formularem experimentos e elaborarem novos questionamentos e conclusões de maneira autônoma.

Aqueles alunos que eu julgava limitados e incapazes se mostraram com riqueza absurda de potencialidades e precisavam apenas de oportunidades para mostrá-las. Ao me redescobrir como profissional, vi que eu era um reprodutor inconsciente de conceitos sociais que criticava. Redescobri com meus alunos que a escola é a melhor e maior ponte entre o patrimônio cultural e a construção do futuro de nossos jovens e que é o espaço onde pode se transformar sonhos em vida.

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