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Encontro de CA debate políticas públicas e participação

01/10/2018

Encontro de CA debate políticas públicas e participação

Jonas Waks, coordenador do projeto Comunidade de Aprendizagem, apresenta balanço da rede de CA

 

Compreender maneiras de transformar projetos de Educação em políticas públicas consistentes, com atenção especial à participação educativa da comunidade e à implementação de CA na Educação Infantil. Estes foram os assuntos centrais abordados no 8º Encontro de Comunidade de Aprendizagem no Brasil, que reuniu nos dias 19 e 20 de setembro especialistas, educadores e gestores de diferentes regiões do país na sede da Natura em São Paulo (NASP).

Organizado pelo Instituto Natura, o encontro de CA é um espaço onde formadores certificados em Comunidade de Aprendizagem compartilham desafios e conquistas do processo de implementação da proposta em suas escolas e municípios. Este ano, o evento foi dividido em duas edições regionais: essa primeira em São Paulo, que integrou participantes do Sudeste e do Pará, e outra que acontece em Recife nos dias 18 e 19 de outubro com formadores certificados do Norte e Nordeste.

Leia também: Comunidade de Aprendizagem caminha rumo à política pública em parceria com secretarias municipais

A mesa de abertura “Políticas Públicas de Educação no Brasil: desafios de transformar um projeto em política pública”, conduzida pelo especialista em Educação do Instituto Unibanco, Alexsandro Santos, trouxe um breve panorama sobre o processo de construção de políticas educacionais no país e dialogou diretamente com os presentes sobre os desafios para garantir a implementação adequada e a sustentabilidade dos projetos desenvolvidos nessa área.

Alexsandro Santos, especialista em Educação do Instituto Unibanco, e Carolina Briso, gestora do pilar Escola do Instituto Natura

“Não se implementa política pública ‘na marra’. Os atores precisam compreender a importância da política”, afirmou Alexsandro, no início de sua apresentação. Segundo ele, a boa implementação de qualquer política pública depende do esforço em mapear e mobilizar as capacidades institucionais da gestão assim como as capacidades e os interesses dos diferentes atores envolvidos no projeto.

Outro ponto destacado por Alexsandro foi a importância de que se estabeleça um pacto de confiança entre formuladores e implementadores da política. “São eles [os implementadores] que conhecem o território, o público atendido e as condições locais da escola”, pontuou o especialista, reforçando a importância da pluralidade de atores envolvidos em todo o percurso. “Quanto mais gente participa da implementação menor a chance de a política ser distorcida no processo”, conclui.

 

Participação Educativa da Comunidade

“Em Comunidade de Aprendizagem, a participação está garantida no próprio desenho da proposta”, afirmou a coordenadora do Núcleo de Investigação e Ação Social e Educativa (NIASE) da UFSCar, Roseli Rodrigues de Mello, durante sua fala na mesa “Desafios da Participação Educativa da Comunidade”, no segundo dia do evento.

“A participação informativa e formativa está garantida na Sensibilização de profissionais, familiares, estudantes, vizinhos. A consultiva e decisória está prevista no processo de Tomada de Decisão tanto dos profissionais como dos familiares. E a parte avaliativa e educativa está no funcionamento permanente de CA, na participação educativa dos familiares”, destacou a pesquisadora.

Mesa: Desafios da Participação Educativa da Comunidade

Apesar de sabermos que são as formas educativas, decisórias e avaliativas de participação aquelas que comprovadamente garantem melhorias na aprendizagem e convivência dos estudantes, Roseli pontua a importância da dimensão informativa como forma de garantir que as demais formas de participação aconteçam. “CA não se faz por convencimento, não se faz por sedução. Sem informação não há participação esclarecida”, defendeu.

Na mesma mesa, gestores de três escolas localizadas em regiões de vulnerabilidade social, compartilharam as estratégias de diálogo e mobilização adotadas para transformar conflitos e situações de crise em possibilidades de participação efetiva da comunidade no ambiente escolar.

Na EMEB Professor Jorge Bertolaso Stella, em Mogi Mirim (SP), o trabalho junto às Comissões Mistas trouxe transformações concretas na escola e no entorno. “Fomos a primeira escola de Mogi Mirim a conquistar o Fundamental 2 porque a comunidade se mobilizou”, conta a diretora Doralice dos Santos Scafi.

“A gente aprende a ser comunidade uns com os outros”, acredita Maria da Cruz Sousa Santos, gestora da EMEB Antonio Pinto de Campos. Em anos marcados por instabilidade política e sucessivas trocas de gestão no município de Cajamar (SP), sua escola conseguiu, por meio do Diálogo Igualitário com estudantes, reduzir os conflitos que se acirravam sobretudo nos últimos anos do Fundamental.

“Eles estavam quebrando a escola porque eles não gostavam da escola. Este processo de ouvir, de respeitar esta fala e entender o que estava por trás dos conflitos foi fundamental. Houve um ganho muito grande ao priorizarmos a escuta”, garante a gestora.

Aproximar familiares e envolver a rotina de professores na proposta de CA são os principais desafios vividos pela EMEF Adirce Cenedeze Caveanha, localizada em Mogi Guaçu (SP). Mas os obstáculos não foram suficientes para impedir que a implementação do projeto acontecesse.

“Eu comecei a sensibilizar os alunos e a partir dos alunos eu comecei a fazer a Sensibilização dos familiares”, relembra o coordenador pedagógico Vanderlei Roberto Gabricio. Com a ajuda de alunos do 6º e 7º anos ele organizou também a Biblioteca Tutorada, inicialmente sem a presença de voluntários. “Assim foi até que a gente conseguiu que a mãe de um dos alunos participantes começasse a vir e ela permanece até hoje”, contou Vanderlei.

As experiências mostram que para inovar é preciso tomar coragem e manter um certo grau de ousadia, que é possível negociar as formas de implementação respeitando a realidade das escolas e ao mesmo tempo preservar os princípios e conceitos que embasam a proposta. Como artistas sociais que somos, “nós estamos trabalhando para criar contextos que não existem”, define Roseli.

 

CA na Educação Infantil

Mesa: Comunidade de Aprendizagem na Educação Infantil

“Estamos desperdiçando a contribuição de um segmento da sociedade quando não ouvimos as crianças”. A fala ao mesmo tempo provocadora e inspiradora da especialista em Educação Infantil, Maria Virginia Gastaldi, encerrou a última mesa de debate do encontro.

Uma das experiências compartilhadas pela mesa foi a do município de Benevides, no Pará, onde a questão da equidade tem sido primordial no planejamento dos programas de Educação Infantil desenvolvidos em amplo diálogo com os princípios de Comunidade de Aprendizagem.

“Hoje, CA faz parte do nosso planejamento e do nosso fazer pedagógico”, disse Rosemary Silva Lobato, gestora da CEMEI Jardim das Juritis. Ao seu lado, Sara Elisabeth Silva, técnica da SME de Benevides, contou como o município adotou a proposta de CA como política pública. O apoio da gestão municipal foi fundamental para o sucesso da iniciativa e para os resultados educacionais que o município obteve desde então. Lá, desde o reordenamento do Sistema Municipal de Educação Infantil, iniciado há 5 anos, o Ideb saltou de 3 para 6,2.

"Quintal Pedagógico" é um dos projetos do município de Benevides, Pará, que desenvolve CA na Educação Infantil

Em São Bernardo do Campo, na região metropolitana de São Paulo, a pequena EMEB Vereador Kiyoshi Tanaka, que atende 69 crianças do Infantil 2, tem realizado um grande esforço interno para sistematizar as ações realizadas e manter a continuidade do projeto.

“Nós fazemos os Grupos Interativos de brincadeiras simbólicas, respeitando as características das crianças pequenas e a necessidade do brincar, e Grupos Interativos de jogos matemáticos”, conta Michele Alexandrino Gomes, coordenadora pedagógica, que, para driblar a baixa participação dos pais, tem mobilizado a participação de voluntários por meio da parceria com estudantes de Ensino Médio de uma escola vizinha.

Leia mais sobre a experiência da EMEB Vereador Kiyoshi Tanaka com a mobilização de voluntários

A fim de compreender e falar com mais propriedade sobre as possibilidades de implementação de CA na Educação Infantil, a técnica pedagógica de Educação Infantil do município de Pedreira (SP), Patrícia Marquezini, resolveu vivenciar esta experiência na prática. Para isso, escolheu as salas mais agitadas, as turmas com Inclusão e escolas em diferentes pontos do município. “A ideia não é a equidade e a eficácia de nossas políticas? Então, se ela funciona numa escola central ela tem que funcionar numa escola da periferia”, argumenta.

No município localizado no interior de São Paulo, Tertúlias Literárias, Musicais e Artísticas realizadas com crianças pequenas têm articulado as Inteligências Culturais a processos fecundos de Criação de Sentido. “[A Tertúlia Musical] eu fiz com “Pedro e o lobo” e “Ode à alegria”, de Beethoven. É emocionante observar: eles vão acompanhando com o corpinho o som e o ritmo, com a mãozinha, atenciosos, prestando atenção na música”.

Ao interagir, as crianças remetem às histórias familiares e ativam saberes e memórias: um dos alunos contou que o pai tocava viola na orquestra de violeiros de Pedreira. Outros discutiam as diferenças entre violino, viola e violão: quantas cordas tem, que madeira tem que ser. “Eu saí de lá especialista em música, conhecendo muito mais do que quando cheguei”, comenta a técnica.

 

As crianças e o direito à participação

Direito de participar: espaços de brincar reorganizados em conjunto com as crianças

“As crianças são observadoras atentas do mundo”, enfatiza Virginia Gastaldi em sua fala no encerramento do encontro. Formadora de professores de Educação Infantil há 30 anos, ela traz na bagagem muitas histórias e práticas que demonstram os benefícios trazidos ao grupo quando escutamos as crianças. “O pensamento infantil pode contribuir poeticamente e eticamente para a construção da nossa sociedade”, defende a formadora.

Durante sua apresentação, Virginia destacou a importância de alinhar as políticas públicas, projetos e práticas educativas à Base Nacional da Educação Infantil. “Penso que a formulação de direitos de aprendizagem posta pela Base para a Educação infantil foi muito feliz. São eles que garantem e dão a cara desta participação democrática e participativa que a gente quer construir”.

Há diferentes níveis para consolidar o direito à participação e que dialogam diretamente com a proposta de Comunidade de Aprendizagem: desde o acesso ao patrimônio cultural, até a participação das crianças nas decisões da escola e naquilo que, inspirada em Josep Maria Puig, Virginia chama de aprendizagem da vida em comum. “Em tempos de intolerância, aprender a fazer uma vida em comum torna-se ainda mais importante. Esta é uma dimensão fundamental da participação que a escola precisa tomar para si”, finaliza.

 

Por: Bárbara Batista

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